Onde o imponderável vira inútil.

13 fevereiro 2006

A lâmpada e o despertar

A cena que se descortina talvez se pareça com um filme preto-e-branco dos anos 50: a câmera lentamente vai abrindo o plano na lâmpada quebrada, no poste antigo, no banco ao lado do poste, no homem deitado sobre o mesmo banco, em alguns trapos e acessórios do homem caídos no chão de terra e, enfim, no parque antigo com árvores centenárias retorcendo seus troncos e séculos. Inserido neste quadro e me sentindo como uma natureza morta, eu desperto de mais uma noite fria e mal dormida e esfrego os olhos, como que um teste: o mundo realmente seria isso? Apenas isso? Pensava: por que as pessoas nunca tomam conta do que é delas? Pensava ainda: por que elas permitem que quebrem uma luminária tão antiga e tão bonita, tão importante que pode ter iluminado as mãos de um Machado de Assis, de um José de Alencar?
De dentro do parque, consigo entrever as latarias coloridas dos carros zunindo pela avenida larga. Vendedores ambulantes disputam os espaços das calçadas com os passantes, apressados como os carros zunentes. Penso: já estive nesse mundo. No mundo do lado de fora das grades do parque. Penso em seguida: o que acontece, que mágica se opera, para que uma pessoa esteja vivendo em um mundo e, de uma hora para outra, não viva mais nele? Mão de um Deus sádico que não se comove nunca com os pequenos dramas pessoais de seus títeres de carne e de suposta imperfeição? Destino puro e simples, como alardeavam minhas tias velhas, encostadas em pianos ancestrais e nunca tocados? Só o que sei é que já pertenci àquele mundo. Hoje, nada do que acontece comigo importa aos habitantes do lado de lá da grade alta do parque. A mim resta observá-los e, uma vez ou outra, normalmente nos dias em que me compadeço até mesmo de existir, invejá-los.
Me espreguiço, empertigo o corpo sobre o banco de madeira. Torço o pescoço para os dois lados, sentindo estalos que são simulacros de despertadores para meu corpo. Chapinho os pés na poça que jaz logo à frente do banco. De meus pés sai uma água mais escura, desenhando na poça arabescos bicolores móveis. Fractais de meu despertar.

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