Onde o imponderável vira inútil.

25 abril 2006

Anjos

Dizem por aí que os anjos são criaturas que vêm ao mundo para fazer com que os humanos compreendam algo mais que a razão de as batatas McDonald’s durarem mais de um mês sem estragar ou entender como funcionam os ativos na Bolsa. Que essas coisas são na verdade distrações, pequenas perversões que inventamos para que nossa vida tenha metas e objetivos. Só que quando descobrimos que essas pequenas perversões acabam por nos afastar de nós mesmos, a ficha cai.
Pois é.
Eu e a Dri, minha mulher, perdemos o nosso neném. Sem explicação lógica ou planejamento. Assim: puf.
É duro ser pai de um anjo.
PS: Vou ficar uns tempos (de novo) sem postar por aqui. Quando voltar, aviso.

19 março 2006

Futuro

Desnecessárias são as desculpas pelo longo e tenebroso período sem posts, galera, pois são óbvias.
Ocorreu que neste período eu passei por um pequeno périplo ("périplo" não parece um caroço de origem obscura?) pessoal: eu e Sra. Grimble tentamos engravidar via vidrinho. "Via vidrinho": leia-se fertilização in vitro.
Conseguimos.
Em breve (ora, cacete, é claro que é breve, nove mezinhos!), teremos um ou dois Gimblezinhos, algumas milhares de gramas de pura peraltice.
Achando-me absolutamente incapaz de fazer algo mais bonito (*), insiro abaixo texto o Branco Leone em homenagem a seu(s) futuro(s) sobrinho(s). Quase tudo é verdade.

Ela, um dia, sentiu-se só (maneira de dizer) e entrou no Par Perfeito. Ele, por acaso, passava por ali e a encontrou. Viram-se, conheceram-se, quiseram-se, casaram um com o outro. Ele de Niterói, ela de São Paulo. Ela, como quem compra um Opala 72 que tivesse trabalhado na praça à beira-mar, fez o traste subir a serra e (maneira de dizer) encostou-o na sua garagem. Botou o traste na ginástica, fez com que voltasse para a escola, mandou tratar-lhe os dentes, desfazer a vasectomia, ensinou-lhe o caminho do barbeiro. Trabalheira insana! Era como (maneira de dizer) estivesse
lhe aumentando o valor de revenda.

Era chegada a hora da segunda parte: ter um filho. Mas o Opala não servia mais para isso, a vasecotmia havia sido bem feita demais. Então começou o calvário de agulhas, remédios, hormônios, embriões congelados, abre as pernas ali, bate uma punheta aqui, endométrios que nunca estavam na espessura certa — e a espessura dos endométrios, acredite, é fator definitivo para que essa porra (maneira de dizer) funcione. Tensão, cansaço, tristeza e uma quase-frustração se instalando. Era a última curva, a última tentativa, o dinheiro se acabando junto com a esperança. Semana passada deu tudo certo, eles passaram pela última curva. Senhor e Senhora Grimble estão grávidos! E podem ser dois, dois pequenos Grimbles de uma vez!

Ah, se esses filhos da puta um dia maltratarem os pais, eu cubro os safados de porrada. Maneira de dizer, é claro...

Obrigado, Gordo.
É bom ter amigos assim.

(*) Ao me ouvir dizer isso, a Sra. Grimble, com um brilho nos olhos, me saiu com uma dessas:
- Como assim? Você já fez a sua parte. Quer algo mais bonito que o que tenho na barriga?

02 março 2006

Submergível mundo novo

O IPCC (Intergovernmental Panel on Climate Change - Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, em bom tupi) está prestes a soltar relatório a respeito das mudanças climáticas no planeta, provocadas pela forma com que nós, humanos, temos tratado o planeta. O relatório é assustador na medida que confirma a máxima de que a realidade, muitas vezes, supera a ficção mais lisérgica.
As previsões, claro, se baseiam na premissa de que será mantido o ritmo de espoliação de que a Terra tem sido vítima. Deixemos claro: dessa vez, NÓS somos os bandidos nessa história sem mocinhos.
Num futuro próximo (mais ou menos metade deste século), a Terra estará entre 2 e 4,5 graus mais quente, o que provocará, dentre outras coisas, o derretimento (dessa vez é de verdade) das calotas polares.
Agora imaginem: os sujeitos também prevêem para o mesmo período que poderemos vislumbrar campos verdejantes no que hoje é a Groenlândia (aquele pedaço de planeta que parece um grande picolé de nata). Teríamos então pacotes turísticos do tipo "Venha ver a natureza selvagem da Groenlândia. Parques aquáticos. Duchas refrescantes. Passeios de pedalinho. Águas mornas. Dançarinas de ula-ula. Ambiente caliente."
E por aí vai.
Ah sim: o nível do mar, também no mesmo período (já pensou? 2.050, logo ali!), subirá sete metros. O Carnaval do Rio será severamente atingido. Ou terá que se mudar para Friburgo, na região serrana do Rio.
Ui.
Dá um medão ter filhos nesse mundo, né não?

23 fevereiro 2006

Em proveito próprio?


Alvíssaras! Alvíssaras! Há duas notícias a serem dadas.

A primeira, que um conto meu (O estranho) jaz orgulhosamente publicado na Engrenagem, da Ro Druhens.

Segunda, que o livro de minha peça "O pacote", que ganhou o último Prêmio Nacional de Dramaturgia FUNCEB, está à venda no Inteligência Ltda, de propriedade do Sr. Branco Leone.

Com relação ao livro, um aviso: TODA a grana ganha com ele será revertida para os Amigos do Bem. Portanto, quanto mais divulgarem, mais gente se beneficiará.

19 fevereiro 2006

Eu, Matusalem

Semana passada, participei de uma entrevista e fui aprovado. Pelo menos neste particular, tudo deu certo.
No entanto, o que mais me chocou foi o que os papas da administração chamam de "a hora do feedback", ou seja , quando o sujeito diz pra você que impressões você despertou durante a entrevista, se você serve ou não para aquilo - se você presta, em última instância.E o sujeito, depois de me avisar que eu tinha sido aprovado, disparou algo como:
- Veja bem: estamos começando e não temos paradigmas a serem copiados. Dessa forma, tudo o que fizermos deve ser o mais cirúrgico e exato possível. Se você olhar para o resto da equipe, verá que todos os seus componentes são... digamos, pessoas... maduras como você.
Meu deuzinho, eu sou um cara maduro!
Saí da entrevista me coçando para entender o que significava "maduro" e cheguei à conclusão que um "maduro" é um pré-velho.
Daqui a uns anos não vou precisar entrar nas filas comuns dos bancos e poderei sentar-me nos lugares reservados aos idosos, no Metrô. Vou andar de graça em ônibus e acampar nas filas do INSS. Vou ter direito a... a quê mesmo?
Quer saber?
Envelhecer é uma porra!

13 fevereiro 2006

A lâmpada e o despertar

A cena que se descortina talvez se pareça com um filme preto-e-branco dos anos 50: a câmera lentamente vai abrindo o plano na lâmpada quebrada, no poste antigo, no banco ao lado do poste, no homem deitado sobre o mesmo banco, em alguns trapos e acessórios do homem caídos no chão de terra e, enfim, no parque antigo com árvores centenárias retorcendo seus troncos e séculos. Inserido neste quadro e me sentindo como uma natureza morta, eu desperto de mais uma noite fria e mal dormida e esfrego os olhos, como que um teste: o mundo realmente seria isso? Apenas isso? Pensava: por que as pessoas nunca tomam conta do que é delas? Pensava ainda: por que elas permitem que quebrem uma luminária tão antiga e tão bonita, tão importante que pode ter iluminado as mãos de um Machado de Assis, de um José de Alencar?
De dentro do parque, consigo entrever as latarias coloridas dos carros zunindo pela avenida larga. Vendedores ambulantes disputam os espaços das calçadas com os passantes, apressados como os carros zunentes. Penso: já estive nesse mundo. No mundo do lado de fora das grades do parque. Penso em seguida: o que acontece, que mágica se opera, para que uma pessoa esteja vivendo em um mundo e, de uma hora para outra, não viva mais nele? Mão de um Deus sádico que não se comove nunca com os pequenos dramas pessoais de seus títeres de carne e de suposta imperfeição? Destino puro e simples, como alardeavam minhas tias velhas, encostadas em pianos ancestrais e nunca tocados? Só o que sei é que já pertenci àquele mundo. Hoje, nada do que acontece comigo importa aos habitantes do lado de lá da grade alta do parque. A mim resta observá-los e, uma vez ou outra, normalmente nos dias em que me compadeço até mesmo de existir, invejá-los.
Me espreguiço, empertigo o corpo sobre o banco de madeira. Torço o pescoço para os dois lados, sentindo estalos que são simulacros de despertadores para meu corpo. Chapinho os pés na poça que jaz logo à frente do banco. De meus pés sai uma água mais escura, desenhando na poça arabescos bicolores móveis. Fractais de meu despertar.

07 fevereiro 2006

Um texto brilhante

Colo abaixo texto de grande relevância sobre o Vale do Paraíba.

"O Vale do Paraíba é de suma importância, pois não podemos discriminar esses importantes cidadãos.
Já que existem o Vale Transporte e o Vale do Idoso, por que não existir também o Vale do Paraíba?
Além disso, sabemos que os Paraíbas, de um modo geral, trabalham em obras ou portarias de edifícios e ganham pouco. Então, o dinheiro que entra no meio do mês (que é o tal do Vale) é muito importante para ele equilibrar sua economia familiar."

PS1: Anônimo - de um e-mail recebido, portanto não reparem na postura um tanto, como direi?, preconceituosa.
PS2: Não reclamem, pois tenho parentes "paraíba".
PS3: Tudo o que eu digo aqui não é necessariamente verdadeiro.
PS4: Quanto mais policiamento ideológico, mais eu me perco...

04 fevereiro 2006

Lambuzado de melado

Estou indo trabalhar num setor de minha empresa destinado ao atendimento de clientes “alta renda”. Já essa denominação me dá frio na espinha, pois me imagino atendendo telefonemas falando a respeito de aplicações de, digamos vinte milhões. Dói. Sobretudo quando vejo o meu contracheque se esvaindo rapidamente em meio à correnteza de contas múltiplas a pagar. É isso: o salário é único; as contas, múltiplas.
Voltando ao “alta renda”: vou trabalhar lá, certo? Mas eu não sou “alta renda”, meu deuzinho! Sou “baixa renda”, mas sou limpinho...
Que pena que eu não nasci corrompível. Em alguns meses, estaria com os bolsos recheadinhos e gozando feliz de um pôr-do-sol irreal de tão lilás num desses paraísos fiscais.
Tenho que me lembrar de reclamar com minha mãe da educação ética demais que recebi. Devo morrer “baixa renda”.
Mas limpinho.

31 janeiro 2006

Traumatologia

O mundo é mau, gente. Mau e cheio de horários, trabalho, computadores e programas que dão pau e nos deixam loucos.
Explico: acabei de voltar de férias, e voltar de férias é uma parte delicada e sensível na vida de todo ser humano. Demanda compreensão dos seus pares e democratiza a síndrome estritamente feminina, conhecida como TPM.
As grandes empresas, por exemplo, deveriam disponibilizar treinamento para nos ensinar a lidar com tamanho trauma. Afinal, quem paga o terapeuta sou eu, pois não?
A primeira semana de volta de férias nos permite entrar em contato direto com o que os filósofos apelidam de "eterno" e é muito semelhante ao que os astrólogos chamam de "inferno astral": tudo dá errado; você se questiona a respeito da utilidade da sua vida; uma nuvenzinha negra paira sobre você e a impressão que se tem é que o ponteiro dos minutos anda inexplicavelmente mais lento que o das horas. Os minutos viram horas, as horas viram dias e os dias viram uma eternidade - daí o contato filosófico com o eterno acima mencionado. A sorte é que depois da primeira semana tudo melhora e você se lembra que existe o MSN e o THC(*), fatores de desestresse e contentamento imensuráveis que pelo menos servem para agüentarmos mais doze longos meses de cativeiro e as inevitáveis e saudosas lembranças da eterna coçação que são as férias.
Bendito é o fruto do vosso ócio.
Ave, férias.
(*) O THC (tetrahidrocanabinol) é uma substância química presente na maconha, sendo o principal responsável pelos efeitos da planta.

26 janeiro 2006

Ilha da fantasia

Sabe o que é tirar férias objetivamente para se fazer uma coisa e depois perceber que essa "coisa" furou e você se encontrar de férias e sem absolutamente nada para fazer? Pois é. Eu estou assim: de férias e coçando. Fragorosamente.
O paraíso é aqui, galera!
Alguém aí quer um gole?
A latinha está geladíssima...

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